A história de um Arraial que se tornou Diocese

A função de um jornal é registrar os fatos que se tornam noticias. Ao longo de seus mais de trinta anos o Jornal de Luz vem cumprindo essa função registrando os acontecimentos que foram e são noticias. Para os luzenses e as pessoas que moram no oeste mineiro, o centenário da Diocese de Luz é um acontecimento relevante, cuja história merece e precisa ser contada nos quatro cantos de Minas e do Brasil. O Jornal de Luz, para contar a história desse centenário, vai buscar informações no acervo material e oral que ainda existem. A Paróquia de Nossa Senhora da Luz teve papel importante na criação da Diocese do Aterrado em 1918. Vamos contar a história que começou com a descoberta de ouro em Goiás.

 

A Picada de Goiás – Em busca do ouro

Segundo pesquisa do historiador Edelweiss Teixeira (Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais), no livreto de 1941 publicado pela Prefeitura de Luz, relata a chegada dos primeiros desbravadores ao oeste mineiro. A descoberta de ouro nas terras dos índios Goiazes, nas eras de 1727, atraia um caudal humano para a região, todos em busca de riqueza fácil, na tentativa de marcar território e fincar raízes na região. Por falta de estrada para transportar o sal, o gado e os gêneros alimentícios de que necessitavam as populações nômades, a solução era “abrir” o caminho através das matas. Doenças não eram obstáculos para os desbravadores que contraiam a maior epidemia da época conhecida por “auri sacra fames”, expressão latina usada por Virgilio, que significa “execrável fome pelo ouro”. Com o apoio do governo da capitania mineira foi dada a abertura da “Picada de Goiás” partindo da Villa de São João (Del - Rey) passando por Tamanduá (Itapecerica), Formiga, Piumhi, Bambui até atingir a Serra do Salitre em direção a Araxá e Desemboque (perto de Sacramento) onde seria o encontro da “Picada” vinda de São Paulo. Com a abertura da ”Picada de Goiás” foi feito um ramal a partir da margem esquerda do Rio São Francisco até atingir a “Meia Ponte” em Goiás. À medida que a “Picada” avançava arraiais e povoados iam surgindo. O mais famoso arraial era o do “Taboleiro” destruído pelos índios Caiapós, que habitavam o entrocamento entre São Paulo, Goiás e Minas, no que era conhecido como Triângulo Goiano, onde hoje se encontra o Triângulo Mineiro. Quilombos iam se transformando em pequenos povoados e alguns sendo destruídos. O mais famoso “quilombo” era o do “Ambrósio” que para alguns historiadores ficava na região de Ibiá e o “Quilombo de Jacuí” os quais obrigou o governo mineiro a enviar tropas para a destruição definitiva desses quilombos. Para o historiador Herculano Veloso o “Quilombo do Ambrósio” se localizava na região da atual cidade de Cristais (MG) e o segundo “Quilombo do Ambrósio” ficava em Goiás. Ainda segundo Herculano Veloso o Procurador da Vila de São José (atual Tiradentes) tomou posse da “paragem” que vai do Bamboí (Bambuí atual), seguindo pela “picada” do São Francisco que saiu de Pitangui passando pela Serra da Marcela (região de Campos Altos, Luz e Estrela do Indaiá) Serra da Saudade (divisa de Dores do Indaiá e Abaeté) Serra da Canastra na cabeceira do Rio Paranaíba, Quilombo do Ambrósio, Serra do Lourenço Castanho (Paracatu) até Goiás, região já invadida por Bartolomeu Bueno. Segundo o historiador Tarcisio José Martins muitas tentativas foram feitas para que os desbravadores obtivessem controle do território onde moravam os índios “Araxás” que lutavam contra a invasão de suas terras. Na metade do século XVIII Inácio Correa de Pamplona, que tempos depois delatou Tiradentes à Côrte de Portugal, dizimou as tribos dos Indios Araxás que se opunham aos interesses do invasor. O Governo de Minas Gerais conseguiu o controle efetivo da região permitindo assim o povoamento da vasta zona do oeste mineiro e de modo especial a região de Araxá, por causa de suas águas minerais e sulfurosas.

 

As primeiras capelas surgidas com a “Picada de Goiás”

Com o surgimento dos pequenos povoados e dos quilombos havia necessidade de se construir capelas para os encontros religiosos. As primeiras que se têm notícias foram em São João Nepomuceno, Itapecerica, Serra do Salitre com a chegada do Padre Leonardo Francisco Palhano. Com as notícias da descoberta de ouro nas cabeceiras do “Rio São Francisco na paragem de Piumhi”, a Câmara de São José Del Rei tomava posse desse novo descoberto e foi nomeado o Padre Marcos Pires Correa como administrador. Padre Marcos se dedicou a levantar a primeira igreja da região que foi dedicada a Nossa Senhora do Livramento, ao redor da qual se formou o povoado.  Em suas idas e vindas o Mestre de Campo Inácio Corrêa Pamplona, regente de todo o oeste mineiro, fez uma parada na região de Bambui e edificou uma igreja dedicada a Sant’ana de Bambuhy, mãe de Maria Santíssima, contando com doações em esmolas e trabalho dos escravos. O primeiro vigário parece ter sido Padre José Rodrigues de Oliveira. Acredita-se que Pamplona tenha sido o fundador de Bambuí. Nesta região se dava encontro das linhas divisórias das dioceses de Pernambuco, Mariana e Goiás. Bambui e Pium-i pertenciam ao bispado de Mariana, enquanto Nossa Senhora das Dores da Serra da Saudade do Indaiá, Morada Nova e Paracatu, pertenciam ao bispado de Olinda em Pernambuco. A diocese de Goiás confrontava com a diocese de Mariana no meio do arraial de São João Batista da Canastra.  No povoada de Desemboque atuava o Padre Doutor Marcos Freire de Carvalho e Padre Félix, ambos vindos de Tamanduá (Itapecerica) que se tornaram famosos nas lutas de fronteiras.

 

As Sesmarias ao longo da “Picada de Goiás”

Pessoas interessadas em povoar, fincar raízes na região e principalmente cultivar terras no oeste mineiro obtinham da Coroa Portuguesa as sesmarias.  O nome de Salvador Jorge, vindo de Paracatu, é o primeiro nome que obteve da Coroa sesmaria na região. Os rios Jorge Grande, Jorge Pequeno e Jorge do Meio tiveram seus nomes associados ao nome de Salvador Jorge. Na região de Dores do Indaiá aparece o nome de Domingos de Brito que obteve uma sesmaria de três léguas com divisas no Ribeirão dos Veados, Serra do Indaiá, Ribeirão do Jorge e cabeceiras do Riacho dos Antas.  No inicio do século XIX os fazendeiros que estavam estabelecidos no povoado de “Boa Vista”, atual Dores do Indaiá, construíram uma capela no denominado largo de São Sebastião, com a capela sendo dedicada a Nossa Senhora das Dores, ao redor da qual foram surgindo várias casas. O primeiro vigário nomeado pela diocese de Pernambuco foi Padre Henrique Brandão de Macedo. A cordilheira da Serra da Canastra passou a ter várias denominações locais como: Serra da Marcela, Serra do Urubu, Serra da Saudade, Serra do Indaiá, Serra do Canastrão. Com os vários povoados surgindo e as brigas existentes entre os fazendeiros é de se notar que as contendas desapareciam com a intervenção da igreja. O povoado de Luz do Aterrado se deu por causa de uma intervenção religiosa das mulheres dos grandes fazendeiros Cocais e Camargos, uma história que o luzense conhece e que aconteceu há mais de 200 anos. Como e porque um pequeno arraial se tornou diocese e em 2018 comemora o seu primeiro centenário é assunto para outras colunas. Boa leitura!

 

Fonte: Jornal de Luz

Prof. Faustino de Oliveira Filho

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