O Canto e a Assembleia Reunida

A reforma litúrgica apresentada no Concilio Vaticano II vem destacar o valor da assembleia que se reúne ao redor da Mesa. Como família, cada um assume a função que lhe cabe na ceia, e numa grande mistagogia, adentram o mistério presente na Palavra e no Pão. A liturgia é o lugar por excelência do encontro da comunidade com seus membros e da comunidade com a Trindade[1]. A igreja da terra se une a igreja do céu para cantar um canto novo e exaltam o dono da mesa.  

          A liturgia, por sua sacramentalidade, exorta toda a assembleia a reafirmar a sua participação no Corpo de Cristo. Não acontece aqui uma simples reunião de pessoas. É, pois, uma comunidade congregada e formada sob a ação do Espírito Santo. Faz parte da assembleia litúrgica todo o povo reunido ao redor da Mesa, e todos são chamados a participação plena, consciente e ativa[2]. Cabe aos ministros leigos e ordenados contribuir para tal efetiva participação de todos. Afinal, a Igreja é ministerial e a ação litúrgica expressa e realiza a integração de todos os ministérios entre si e destes com a assembleia.

          Como na pedagogia dos pais que ensinam o filho a amadurecer-se ao longo da vida, o Espírito Santo inspira a Igreja de Cristo a construir um caminho de crescimento, inclusive na ação litúrgico-musical. Guiado pelo Espírito, o canto litúrgico passou por grandes transformações ao longo da história até ser assumido como um ministério inseparável da assembleia. Foi a partir do século IV que começou a se falar em coral, o qual inicialmente era formado por monges, sem alguma formação musical; eles ficavam nos primeiros bancos da assembleia e tinham a função de sustentar o canto. Mais adiante, e por muito tempo, houve a separação entre coro e assembleia, o que explica em muitas igrejas ter em cima do hall de entrada o lugar do coral, distinto da nave da igreja[3]. Já no século XX, com o Concílio Vaticano II, ocorre o retorno do coral para junto da assembleia, mas agora como um ministério litúrgico e com a função de animar e sustentar o canto. Hoje o seu melhor lugar a ser ocupado no corpo da igreja não é no coro, mas sim próximo à assembleia, não de costas para ela, voltado para o altar, à direita ou à esquerda, em lugar visível e cômodo, fora do presbitério; de modo que os cantores possam desempenhar bem sua função e mais facilmente ter acesso à mesa eucarística[4].

          Com a renovação litúrgica o ministério do canto (compositores, animadores, salmistas, instrumentistas, coral ou grupo de cantores) se vê como uma porção da assembleia dos fiéis que, em nome e em função dela mesma, assume o papel de servir com alegria. Essa porção da assembleia precisa antes de tudo conhecer a comunidade que se reúne para rezar. Levar em consideração a assembleia celebrante, com suas possibilidades, sua riqueza e seus limites, é a primeira preocupação de uma Liturgia verdadeiramente pastoral e renovada. É o caminho mais seguro para se chegar a uma celebração cheia de vida, significativa e personalizada, sobretudo quando se trata de música e canto.[5] O canto deve revelar um povo que, com sua identidade local, eleva aos céus um louvor digno e verdadeiro.

Já sabemos de longa data que todos os ministérios litúrgicos devem exercer sua função com amor, sempre levando os fiéis a participar com dignidade e entusiasmo do mistério celebrado. Mas, ainda, hoje vemos comunidades onde o grupo de cantores canta e a assembleia escuta passivamente, sem ao menos participar das partes do canto que lhe cabem. Se ha mais de 50 anos o canto litúrgico é orientado pela Sacrossanctum Concilium não podemos mais correr o risco de causar um descompasso no ritual e, consequentemente, a desmotivação dos fieis em sentirem-se convidados para a festa. É preciso lembrar sempre que nenhum cantor, animador ou instrumentista está na ação litúrgica para se apresentar à comunidade, como num show, mas para cantar junto, como irmãos reunidos ao redor da mesa, cuja inspiração para tal é o próprio Cristo.

Que o caminho musical construído ao longo da história litúrgica da nossa igreja, sempre seja levado em consideração por todos nós, e saibamos perceber a ação do Espírito Santo a conduzir o nosso canto. Tenhamos a consciência da grandiosidade do nosso trabalho musical transformado em ministério litúrgico. Sejamos instrumentos nas mãos de Deus e juntos, como igreja, cantemos ao Senhor.

Comissão Diocesana do Canto Litúrgico

Pe. Luiz Henrique

Assessor

Bate-papo

1 – Como se dá a integração deste grupo de cantores e instrumentistas com a assembleia durante as celebrações litúrgicas na comunidade?   

2 – Levando em consideração a caminhada musical desta equipe de canto e sua atuação na comunidade, quais foram os avanços até o então momento e o que precisa ser melhorado?

Sugestão texto para estudo litúrgico-musical

- A Música Litúrgica no Brasil – Estudos da CNBB nº 79

[1] Documento 79 da CNBB, 157

[2] Sacrossanctum Concilium, 14

[3] Quem canta? O que cantar na liturgia? Fr. Joaquim Fonseca, OFM, 22

[4] Cf Guia Litúrgico-pastoral – CNBB 2ª ed – 2.2

[5] Documento 79 da CNBB, 172

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